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1 29th May 10:42
no tea
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

Uma nau sem rumo e sem carga

Eis o retrato do governo Jango, quarenta anos após o golpe que o depôs, tal
qual ressalta de um novo livro

Que reforma agrária era aquela? O decreto preparado pelo governo João
Goulart, em fins de 1963, prevendo a desapropriação das terras situadas
numa faixa de 10 quilômetros de cada lado das rodovias e ferrovias
federais, causava não só a apreensão dos conservadores, mas uma geral
estranheza. Para começar, aquilo não era assunto que pudesse ser
equacionado pela via de um simples decreto. Também não se compreendiam a
ausência de estudos técnicos a embasá-lo e a falta de atenção *s diferenças
regionais. Dois dirigentes do PSD, Tancredo Neves e Amaral Peixoto, foram
ao l*der do governo, deputado Doutel de Andrade, pedir explicações. Doutel
riu. "Mas os senhores acreditam na reforma agrária do Jango?! No dia em que
ele fizer uma reforma agrária, que vai fazer depois?"

Passados quarenta anos do golpe que o depôs, João Goulart ganha seu ju*zo
definitivo num livro que chega *s livrarias nesta semana – Jango: um Perfil
(1945-1965), do historiador Marco Antônio Villa (Editora Globo). Já se vê,
pelo episódio em que é ridicularizado por seu próprio l*der na Câmara, que
tipo de ju*zo é esse. As conclusões de Villa são devastadoras tanto para o
governo quanto para a pessoa Jango. O governo, tão carente de direção
quanto de conteúdo, toma a forma de uma nau sem rumo e sem carga. A pessoa
reúne a falta de convicções e a tibieza * ausência de escrúpulos com os
recursos públicos e, tanto quanto os adversários, a tendência ao namoro com
as soluções golpistas. "Apesar do exerc*cio de tantos cargos no Legislativo
e no Executivo, é dif*cil encontrar alguma frase, uma idéia, uma lei,
enfim, algo de relevante para a posteridade que João Goulart tenha
produzido", escreve o autor. Os propósitos reformistas contidos na bandeira
das "reformas de base" encontraram menos resistência no Congresso ou em
setores conservadores da sociedade, conclui-se da leitura do livro, do que
na incompetência do próprio governo, incapaz de "construir uma proposta
coerente de transformações".

Villa começa o livro afirmando ser "muito dif*cil" escrever sobre Jango:
"Afinal, minha geração ficou com a imagem de um presidente jovem e valente
que foi deposto quando quis fazer as reformas de base". Jango foi abatido
por um golpe, do qual resultaram vinte anos de trevas ditatoriais: eis um
fato que toldou, durante longo per*odo, o ju*zo sobre ele. Se a ditadura
era o Mal, e era o Mal mesmo, com sua truculência e seu obscurantismo –
quanto a isso, nenhuma dúvida –, Jango tinha de ser o Bem. Essa é a lógica
de todos os enredos, dos contos de fadas *s novelas de televisão. Quem
ousasse falar mal de Jango seria tido por aliado da ditadura.

Quarenta anos passados, para bem da inteligência, podem ser removidos os
filtros que nublavam a apreciação do per*odo. É a essa tarefa que Villa se
entrega, num livro ao mesmo tempo singelo e revelador. É singelo porque tem
como proposta a simples enunciação dos fatos. A um cap*tulo inicial
dedicado * fase anterior * Presidência, dominada por um Jango mais chegado
ao futebol e *s vedetes de teatro de revista (uma paixão da vida inteira)
do que * pol*tica, segue-se uma minuciosa reconstituição dos 31 meses de
governo. E é revelador pela luz desmistificadora que a simples enumeração
dos fatos joga sobre eventos que tanta controvérsia geraram na época.
Tome-se a Lei de Remessa de Lucros, pela qual o governo derramou tanta
retórica quanto pela reforma agrária. A lei, cujo objetivo era regular os
lucros enviados *s matrizes pelas empresas estrangeiras, foi aprovada pela
Câmara em agosto de 1962. Subiu então * sanção presidencial, mas o
presidente não a assinou. Acabou promulgada pelo presidente do Congresso. A
omissão do governo deslocou-se em seguida para a regulamentação da lei.
Jango só veio a cuidar do assunto em janeiro de 1964, mais de quinze meses
depois. E essa era uma prioridade de seu governo...

O ambiente da época não era prop*cio * racionalidade. A pol*tica se fazia
no grito, e mais do que a opinião pública ou os votos no Congresso valiam a
posição dos generais e seus tanques. O cálculo do golpe era onipresente. O
que se espera de um presidente, nesse panorama, é que manobre para diminuir
o mais poss*vel seus efeitos nocivos. Jango os agravava. "Ele era uma rolha
balançando na água. Ia sempre pela última opinião que ouvia", escreveu o
embaixador americano, Lincoln Gordon. No extremo oposto, o deputado Leonel
Brizola, cunhado de Jango, desistiu de conversar com ele: "Conversar para
quê? O presidente não decide. O presidente ama o poder, mas detesta o
governo". Um erro mortal que caracterizou o per*odo, ao qual o livro de
Villa empresta toda a ênfase poss*vel, era a descrença na democracia.
"Jango, Brizola, Prestes, a maior parte da oficialidade das Forças Armadas,
quase toda a UDN, parte do PSD, jornalistas, empresários, todos não só não
acreditavam na democracia como a consideravam um empecilho ao progresso
econômico", escreve o autor. Cada um semeava a própria ditadura. Uma delas
acabou vingando.

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You've got a large key, a book and no tea.
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2 29th May 10:42
anton
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A frase de Brizola cai como luva a nosso presidente e seu partido.
Anton.
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3 29th May 10:42
anton
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A frase de Brizola cai como luva a nosso presidente e seu partido.
Anton.
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